Sou da geração de '70. As pessoas da minha geração padecem de dois males. O primeiro foi que depois do 25 Abril '74 os nossos pais quizeram que nós tivessemos acesso a tudo o que eles não tiveram. O segundo foi que não nos apercebemos da grande crise económico-financeira que houve na década de '80.
Ser Pai é o trabalho (não é o emprego, é o trabalho mesmo) mais dificil do mundo. Há que gerir sentimentos, modelar carácteres, preparar para a adversidade, fazer cedências, negociar estilos de vida, gerir lares tudo sem que as crianças sejam, ou sintam que são, prejudicadas.
Enquanto pais queremos que os nossos filhos tenham o mesmo, se não for possível melhor, que nós tivemos. Nós da geração de '70 fomos previligiados. Estudámos até às Licenciaturas (erro, erro, erro, há profissões técnicas onde se pode ganhar tanto dinheiro, mas isso será tema para outro post, um destes dias), pois quem não fosse Dr não tinha respeito na vida profissional. Viajámos, nem que tenha sido para Espanha, mas viajámos. A grande maioria de nós fez viagens de finalistas, de lua de mel, etc e tal. Gastámos (e gastamos) uma pipa em concertos e festivais. Compramos roupa em lojas de marca que se disfarçam de acessíveis. Temos os nossos filhos nos colégios.
Na crise de '80 tinha cerca de 10 anos, e no entanto não recordo muito, que é para não dizer nada. Não me lembro de ver os meus pais irem para as filas de supermercado levantar alimentos que estavam racionados, e no entanto foram. Não me lembro de ginástica financeira na família, e no entanto houve, mas o que é certo é que nos meus anos lá vinha a Nancy ou a Tucha, tirada não sei de que cartola, mas vinha. No verão foi possível fazer as tradicionais férias a sul, porque havia familia a residir e emprestava a casa que se transformava em acampamento cigano, e isso era tão mais fixe. Não me lembro de não comer bifes, até porque eu os comia, sem perceber que os pais não tinham no prato a mesma refeição que eu.
Os meus pais foram exímios em poupar-me a estas memórias. E os meus pais não são melhores que os vossos. São iguais, são gigantes, são é os meus, e por isso para mim são Idolos, para além de inestimáveis.
A minha geração, a de '70, está mal habituada. Nós vivemos acima da média, porque nos foram dadas condições para isso. Empregos com remunerações acima da média, créditos à habitação para adquirirmos casas que não temos capacidade para pagar. Ai queres um carro novo? Um topo de gama? Porque não um Mercedes, que pedes mais 2000 e ficas melhor, isto nem representa assim tanto na mensalidade! Olha, já agora compra lá uma casa no Algarve, que sai mais barato que alugar em Agosto, e sempre ficas com alguma coisa para deixar aos míudos. Já agora subscreve lá aqui umas aplicações e mais um visa que te damos um IPhone, só para veres o fixe que somos. O quê? Pagar, não consegues? Epá, não faz mal, depois fazemos aqui um creditozinho pessoal e paga-se assim, de caminho toma lá mais 2500 emprestados para as férias, para aquela viagem que queres mesmo fazer às Caraíbas, disse-nos a Banca enquanto nos piscava um olho, esfregava a mão atrás das costas e acendia o forno para nos comer até ao tutano.
A minha geração foi burra. Na minha geração não se sabe o valor, nem a definição, da palavra Aforro. É-nos tão estranha como ouvir falar Sueco na mesa de esplanada ao nosso lado. Não se traz almoço para o trabalho, que isso é coisa de pobre, e nós não queremos que as pessoas achem que nós somos pobres. De transportes? Naaa, é de carro mesmo que se deve de andar, então até pedimos dinheiro para o ter e agora não o mostramos?
Estou rodeada de histórias tristes: amigos que ficaram sem emprego, gente que teve que emigrar, negócios que faliram, ordenados que não são pagos e as pessoas estão ali presas porque se saem não veêm mesmo nada do que lhes é devido, cortes salariais.
E no meio disto tudo não durmo à noite. E já me calhou a mim, já chegou a minha vez. E já sinto a mão do carrasco nas minhas costas, e a corda a roçar-me na nuca. E se é áspera, a cabrona. Mas enquanto ela não estiver ao pescoço, e o chuto no banco não for dado, ainda me mexo. E espero, enquanto desespero, e faço-me católica...
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