Não percebo muito bem esta relação bipolar que os meios de comunicação têm com a realidade. Se de tempos a tempos são extremamente úteis na divulgação de casos que sem estes não se saberia da sua existência (como caso Casa Pia ou o Freeport, que dos últimos anos são os mais mediáticos, ou o mais recente das Licenciaturas relâmpago) noutros chega a raiar a estupidez.
Numa altura em que tanto poderia haver para falar, para dedurar, para expôr, abro os jornais e deparo-me com notícias (se é que se pode chamar a isso notícias) em que só me ocorre um A sério, juram mesmo que isto é a sério e que alguém escreve isto?
Veja-se:
- Segundo o DN, o que é importante é que Reynaldo Gianecchini após o cancro ficou com o cabelo encaracolado. Portanto, de tudo o que se podia dizer acerca do cancro, de utilizar figuras públicas para divulgar ainda mais a prevenção da doença, de que ela pode ter cura, que se pode sobreviver, o importante frisar é que o cabelo nasceu encaracolado. Parece-me bem, sim senhora.
- Para o Correio da Manhã é importante divulgar que Alexandra Figueiredo (seja ela quem for, mas ela deve ser importante, eu é que sou inculta) tem 30 biquinis com corte brasileiro. Acho feio, e dos que não têm corte brasileiro, quantos tem? Como querem que o leitor fique satisfeito quando só dão a informação, pertinente, pela metade?
- Também no Correio da Manhã (aliás, neste Jornal é só coisas importantes) tem destaque a noticia de uma californiana que ganhou o título da mais gorda do Mundo, está a seguir um programa rigoroso para emagrecer que consiste em maratonas de sexo. Isto sim é informação e serviço público.
- Outros destaques, vocês sabem de onde: no Brasil (é que nem sequer é cá) uma criança mantinha a mão adoptiva enclausurada para lhe roubar reforma; ou que na Austrália polícias foram confundidos com strippers; que Cristiano Ronaldo vai investir um milhão de Euros numa discoteca no Algarve (ao menos alguma coisa é em Portugal); e last but not least que Casillas pediu a árbitro português para acabar final do Euro antes do fim do período de descontos.
Para quê falar de que foram realizados menos 78 transplantes este ano que no anterior; ou que a Peugeot Citroen vai cortar 8 mil postos de trabalho em França, na sua maioria postos de emigrantes Portugueses; que uma cambada de anormais filhos da puta incendiaram, gratuitamente, uma casa só para ver os sem-abrigo fugir; ou até que a produção sobe na zona euro e UE, e que Portugal regista o maior aumento?
E este, Senhores, é o estado da (des)Comunicação em Portugal. Diz-se que temos o País que merecemos, mas, e por mim falo, eu mereço mais do que isto. Muito mais do que isto.
Sem comentários:
Enviar um comentário