terça-feira, 15 de maio de 2012

O bicho Papão

Há dias em que dou por mim a pensar se esta coisa da recessão e da crise é mesmo assim tão má, ou se somos nós que a fazemos ainda maior.
O Português é um povo de brandos costumes, que gosta de se lamentar. Gosta tanto de se lamentar que inventou a palavra saudade e elegeu o fado como sua musica tradicional.

Somos um povo que se une, levanta, entusiasma e luta por um qualquer Mundial ou Europeu de futebol. Somos um país que se move de paixão (e ódio) numa qualquer Taça da Liga.

O que me pergunto é: onde está essa chama, quando temos que lutar por um bem comum, como a sobrevivência? A nossa, dos nossos filhos, dos nossos pais, do nosso país?

Gosto de ser portuguesa. Gosto deste espirito coitadinha que carrego, e não trocava de nacionalidade de por nada. Gosto, e muito, de ser uma drama queen. É verdade que não participo de aglomerados de luta. Não faço greves, e não participo em manifestações. Porque acho que não é por aí que vamos avançar. E secalhar até estou errada, porque se houver mais 2 milhões que pensem como eu, que não saem às ruas, que não fazem ouvir as suas vozes, elas nunca vão ser ouvidas, e estas formas de luta, de mostrar desagrado, de fazer pressão na mudança, nunca vão servir para nada.

A culpa desta dita crise não é de um Passos Coelho, não é de um Sócrates, não é de um Cavaco. Ou melhor, não é só das gestões danosas de sucessivos governos liderados ou à la PS ou à la PSD. É nossa, que os pomos lá, que somos roubados constantemente e não nos importamos, que trabalhamos até mais tarde (no horário e na idade) e tapamos o sol com a peneira. É tão mais importante a preocupação com o tempo que vai fazer no mês de Agosto, quando vamos de férias.

Somos um povo invejoso, que renega acções como a da Jerónimo Martins (o povo que não alcançou condena, os concorrentes condenam - só porque não se lembraram disto mais cedo, o governo condena e multa - ora pois, a miséria da população veio ao de cima, os sindicatos impugnam os vencimentos de 500% por alegada injustiça relativamente aos restantes colaboradores - colaboradores esses que não achariam nada mal se tivesse sido um dia normal, e que enquanto eles estariam em casa os outros mouros estariam a trabalhar, mas isso já seria azareco, não é?). Somos explorados por países, supostamente, irmãos a quem demos a mão (e o nosso dinheiro) quando precisaram, mas que agora esmifram as nossas empresas e trabalhadores que lá procuram a bolha de oxigénio. Facilitámos a entrada cá de toda a gente e agora somos lixados com cotas de emprego, vistos que demoram meses a sair e que são pagos quase à razão de um empréstimo à habitação.

Todos os dias oiço histórias de alguém que conheço, sendo próximo ou não, que fica sem emprego. De empresas que encerram. De familias na miséria. E todos os dias penso que há probabilidades de um dia essa história ser minha. E procuro a bolha de oxigénio. E penso em sair daqui, em como seria, no que teria que sacrificar, e pior, sacrificar a minha familia. E os apertos começam, o do coração, o da alma, o das contas financeiras, os pratos da balança equilibram-se e desiquilibram-se com a mesma rapidez.

Todas as noites, nas poucas horas que durmo, me deito e levanto com a mesma companhia: o bicho Papão. Mas olha, que se lixe, às 3 da manhã, enquanto faço contas do (pouco) tempo que ainda me resta para dormir, entre um copo de água e uma torrada, vai um stress calm pela garganta a baixo, e amanhã é outro dia.

Dorme bem, Papão. Bom dia Papão, lá vamos nós para mais um dia!

Sem comentários:

Enviar um comentário