sexta-feira, 18 de maio de 2012

Filho és, pai serás

Todos nós nascemos da decisão (às vezes é mais aceitação que decisão, mas isso já são outros trezentos) de duas pessoas. Ninguém pede para nascer. Um dia de cada vez, um passo depois do outro, um degrau após o outro, e a isso se chama crescer. Que não vai ser fácl, é uma das primeiras coisas que aprendemos.

Para uns, crescer e viver, vai ser mais fácil que para outros. Ou porque têm mais poder economico-financeiro, ou têm mais estabilidade familiar, ou são mais inteligentes, ou são mais bonitos, ou souberam escolher melhor as pessoas que os rodeiam, ou foram mais aplicados, ou são mais letrados e inventivos. Há inúmeros ou's que podem mudar o nosso curso a qualquer momento.

Pessoalmente, acredito que cada um de nós já nasce com o percurso traçado, com o destino feito, e que podemos a determinada altura contorná-lo mas não o podemos alterar ou evitar.

O que todos temos em comum é que nascemos de um pai e de uma mãe, apesar de não termos necessariamente que manter este registo a partir do momento em que saímos do utero da nossa mãe. Claro que as dezenas de variáveis familiares que (já) existem podem influenciar. Há mães que só o são porque nos geraram, há pais de empréstimo que são mais pais que os que nos deram o ADN, mas isso para o que quero falar não tem qualquer importância.

Nós somos o que somos, estamos onde estamos, e alcançamos o que alcançamos por causa do esforço que alguém um dia fez por nós.

Enquanto dependentes alguém nos alimentou, vestiu, educou, proporcionou escolaridade, incutiu valores. Alguém sofreu, chorou, riu, jogou, brincou connosco, o mesmo alguém que sofreu, chorou, riu e trabalhou por e para nós.

E isto, este sentimento (sem qualquer desvalirização por quem não é pai), de coração fora do peito, que bate perto da boca, de noites mal dormidas, de amor irracional e incondicional só quando se é Pai/Mãe se percebe. Esta coisa de matar e morrer pela cria. Esta coisa animal de cheirar a cria e acalmar. Esta coisa de entre 300 crianças sabermos, sem qualquer dúvida, que é a nossa que está a chorar. Esta necessidade de suprir e antecipar toda e qualquer carência da cria, seja a que custo for.

Sei (e conheço) pais que fazem magia nos seus orçamentos para dar aos filhos o que eles querem e não querem, o que merecem e não merecem. Pais que anulam (anular não é a melhor palavra, mas por ora não encontro uma melhor. Talvez abdicar, mas também não é a melhor) a sua vida em prol de contribuir para um melhor futuro, que não disfrutam do retorno do seu trabalho, que não viajam, não saem, não vão ao cinema, não jantam fora, porque tudo é a pensar na continuídade. Um valor maior, para eles.

E depois coloca-se a questão: mas não compete, aos pais enquanto pais, fazer essas coisas, já que foram eles que decidiram em algum momento trazer pessoas ao mundo? Secalhar compete, secalhar não, mas nem vale a pena discutir isto, por entramos aqui numa espiral que não tem fim de arguntação.

O que eu questiono é: então e não merecem os pais que, após criados e adutos, os filhos os amparem? Tomem conta deles? Estejam lá incondicionalmente? Sejam suporte? Os façam sentir amados e apoiados, integrados na familia que se alargou?

Como é que é possível que tanta gente seja enfiada, porque este é o termo, em lares (falo aqui não da generalidade dos casos, mas sim daqueles que são depositados porque não há espaço para eles na vida dos filhos), onde não recebem visitas, nem nos anos sequer? Como é que é possível que haja tanta gente a morrer sozinha em casa? Como é que há tanta gente que após uma vida de sacrifício e trabalho passe necessidades? Como é que há filhos que se esquecem dos pais? Destes pais que os fizeram ser quem são? Como é que alguém é votado ao esquecimento? É que não há quem me explique isto, não há.

Por isso digo, de tempos a tempos, ao meu para nunca se esquecer que filho é, e pai será.

Sem comentários:

Enviar um comentário